sábado, 12 de novembro de 2016






Minha mãe estava sempre inventando coisas para ganhar dinheiro. Bolos, pães, costuras, artigos de Páscoa, coroa de finados. A nossa casa se enchia de cheiros que variavam com a ocasião. Alguém procurava um bolo de casamento? Sim, ela fazia bolos de casamento. Uma vez fez um tão grande que não saia pela porta. Felizmente, a janela da frente não tinha grade e o tabuleiro enorme conseguiu passar e ser seguro por homens com os braços estendidos e desajeitados. Caiu uma parte da preciosa encomenda a poucas horas da festa. Levaram minha mãe junto para remendar e lá foi ela aboletada na caminhonete, segurando aquela preciosidade em risco. Nunca vi uma pessoa tão disposta a enfrentar as adversidades com serenidade e sorriso. E foram muitas adversidades. Um verdadeiro rosário.
Nos finados, o cheiro em casa era de parafina. Ela fazia as flores de papel crepom, ia mergulhando as flores na parafina que fervia no fogão, para entrelaçá-las num arame enrolado e formar as grinaldas. Então, colocava uma banquinha na frente do cemitério e vendia tudo. Ainda bem, porque aquelas sobras a gente não queria em casa. 
Ao contrário das sobras da banquinha no carnaval. Pois é, no carnaval minha mãe e meu pai pagavam a licença para por uma das banquinhas na praça, onde ocorriam os desfiles. Num ano, choveu a semana inteira-naquele tempo, o carnaval durava religiosamente uma semana- e nós estufamos de tanto bolinho, pãozinho, salsicha, bauru, doce. 
Depois vinha a Páscoa e minha mãe confeccionava casinhas, ovos, cestinhas,tudo de açúcar. Estendia para secar ao sol, depois enrolava em celofane e às vezes varava as noites nesse trabalho. Meu pai ajudava e eu também, quando não tinha tarefas da escola. Nessa época, ela arregimentava uma legião de vendedores e sempre havia gente entrando e saindo. Com isso, ela fazia muitas amizades e podia exercer outra faceta de sua personalidade: dar conselhos.
Dor de alma, ela conhecia todas, mesmo sem nunca tê-las sofrido. Sempre tinha uma palavra mágica para o apaixonado ou apaixonada sofredores. Vi homens e mulheres chorando. Vi enredos dramáticos se desenrolando em nossa sala. As pessoas vinham de longe só para conversar e ouvir algumas palavras de consolo. Não tenho esse dom. Meu pai era calado e saí a ele.

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