domingo, 13 de novembro de 2016






Meu pai era incrível. Criado no campo, em lugar ignorado, foi mal alfabetizado. Veio para a cidade não sei quando, mas desconfio que isso aconteceu depois dos quinze anos. Aprendeu marcenaria, dizia ele que no Senai. Tornou-se o melhor marceneiro de quem já tive notícias. Fazia móveis complicados por catálogo. Seus clientes constituíam a nata da alta sociedade local. O capricho, exatidão, paciência, tenacidade faziam com que aquela gente não o largasse. Nem mesmo quando fechou a oficina e resolveu ser feirante vendendo bolachas sofisticadas, das quais nos empanturrávamos após o almoço. 
Como as pessoas continuavam a ir atrás dele para que lhes fizesse móveis, nossa sala passou de depósito de latas de bolacha a oficina de móveis. A dificuldade às vezes era para receber o pagamento. Entregava o móvel e a pessoa ia para a Europa e só se aborrecia com as dívidas que ficavam para trás, quando já estava de volta. 
Ele aprendeu a tocar clarineta não sei quando nem onde. Todas as noites, sentava na beira da cama, prendia as partituras no suporte e ficava tocando. 
Participava de uma banda e saía com sua clarineta também nos cordões de carnaval. Não sei que fim levou o instrumento, pois nos últimos anos não tocava mais.
Um dia, comprou uma moto. Desmanchou-a toda, botou as peças de molho no querosene e montou de novo. Minha mãe lhe fez uma jaqueta de couro. Lembro dele com uma faquinha desbastando as beiras para serem costuradas. Nos saíamos pelas estradas. Minha mãe na garupa e eu no tanque, sentindo o vento no rosto e o asfalto como uma linha escura à frente e as árvores correndo ligeiras para trás. Naquele tempo não havia fiscalização, proibição, postos rodoviários e quase nenhum trânsito. Eu podia saborear sem susto toda a liberdade. Acho que não há nada nos dias de hoje que possa substituir essa sensação maravilhosa.
Ele participava de corridas de moto. Levantamos cedo um dia e nos aboletamos num ônibus, eu e minha mãe, cheio de acompanhantes dos motociclistas. Minha mãe fez uma boa quantidade de balas de café e outras coisas-porque ela sempre carregava uma fartura de lanches nessas ocasiões. 
Quando chegamos no local da corrida, meu pai chegou com uma mulher na garupa. Ela tinha o rosto todo lanhado. Ficamos sabendo que o marido se acidentara no caminho. Não sei o que aconteceu com o homem, mas lembro que na volta tive que dar o meu lugar para a mulher e sentar no colo de minha mãe.Daquele dia, fiquei com as imagens de um lugar poeirento que devia ser um hipódromo, homens de motocicleta com jaquetas de couro pretas, muita agitação, uma mulher de rosto redondo todo esfolado e sujo e um sabor gostoso de bala de café.
Das motos, meu pai passou para as caminhonetes. Comprava, ficavam paradas um tempão, ele desmanchava todo o motor, botava tudo no querosene, montava e a coisa andava.
Não contente em comprar velhas caminhonetes, ele resolveu fazer a carroceria inteira e comprar só motor e chassis. Nós apelidamos a primeira de cristaleira, porque era muito engraçada. Fechada, quadradinha, com vidros de correr nas janelas. Pintada de verde com vermelho é a lembrança mais ridícula da minha infância. Apesar de tudo, a coisa andava. Carregava as mercadorias para a feira e a família para a praia.

sábado, 12 de novembro de 2016






Minha mãe estava sempre inventando coisas para ganhar dinheiro. Bolos, pães, costuras, artigos de Páscoa, coroa de finados. A nossa casa se enchia de cheiros que variavam com a ocasião. Alguém procurava um bolo de casamento? Sim, ela fazia bolos de casamento. Uma vez fez um tão grande que não saia pela porta. Felizmente, a janela da frente não tinha grade e o tabuleiro enorme conseguiu passar e ser seguro por homens com os braços estendidos e desajeitados. Caiu uma parte da preciosa encomenda a poucas horas da festa. Levaram minha mãe junto para remendar e lá foi ela aboletada na caminhonete, segurando aquela preciosidade em risco. Nunca vi uma pessoa tão disposta a enfrentar as adversidades com serenidade e sorriso. E foram muitas adversidades. Um verdadeiro rosário.
Nos finados, o cheiro em casa era de parafina. Ela fazia as flores de papel crepom, ia mergulhando as flores na parafina que fervia no fogão, para entrelaçá-las num arame enrolado e formar as grinaldas. Então, colocava uma banquinha na frente do cemitério e vendia tudo. Ainda bem, porque aquelas sobras a gente não queria em casa. 
Ao contrário das sobras da banquinha no carnaval. Pois é, no carnaval minha mãe e meu pai pagavam a licença para por uma das banquinhas na praça, onde ocorriam os desfiles. Num ano, choveu a semana inteira-naquele tempo, o carnaval durava religiosamente uma semana- e nós estufamos de tanto bolinho, pãozinho, salsicha, bauru, doce. 
Depois vinha a Páscoa e minha mãe confeccionava casinhas, ovos, cestinhas,tudo de açúcar. Estendia para secar ao sol, depois enrolava em celofane e às vezes varava as noites nesse trabalho. Meu pai ajudava e eu também, quando não tinha tarefas da escola. Nessa época, ela arregimentava uma legião de vendedores e sempre havia gente entrando e saindo. Com isso, ela fazia muitas amizades e podia exercer outra faceta de sua personalidade: dar conselhos.
Dor de alma, ela conhecia todas, mesmo sem nunca tê-las sofrido. Sempre tinha uma palavra mágica para o apaixonado ou apaixonada sofredores. Vi homens e mulheres chorando. Vi enredos dramáticos se desenrolando em nossa sala. As pessoas vinham de longe só para conversar e ouvir algumas palavras de consolo. Não tenho esse dom. Meu pai era calado e saí a ele.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016



É engraçado pensar que tio de minha bisavó (meu tio-tetravô? Isso existe?) era o homem mais rico deste estado. Aliás, era dono de metade deste estado e metade do Uruguai. Minha avó sempre falava  que a mãe dela contava sobre as tesouras de ouro da tia. Viviam na fazenda dele em Santa Isabel. Depois os irmãos brigaram não sei por quê. A briga deve ter sido feia, pois meu tetravô pegou a família e veio, com uma mão na frente outra atrás, para a cidade e nunca mais se falaram. 
Essa imensidão de terras e riquezas que esse antepassado possuía foram dadas de presente pelo imperador, não sei qual dos Pedros. Quando morreu, o bendito fez a primeira reforma agrária e a única que ocorreu neste país. Deixou tudo para os escravos. Nem uma tesoura de ouro para o irmão. 
O testamento continha a cláusula de que após cinquenta anos as terras seriam devolvidas pelos escravos e os herdeiros poderiam receber a herança. Minha avó disse que ela e a irmã passaram a infância indo ao foro com a mãe, tentando mudar o tal testamento. 
Passei minha infância e juventude escutando esse assunto em casa. Um dia, já casada e lecionando, meu marido chegou comentando que a frente do foro estava tomada por uma multidão, porque estava abrindo o testamento de um tal Faustino Correa. Levei um susto. Hein!! Mas este era o tio da minha bisavó! O que uma multidão tinha a ver com tal abertura? Não é que o homem que não teve filhos conseguiu se multiplicar em quase três mil herdeiros. Todo mundo se dizia seu descendente. 
Minha mãe ficou muito feliz. Um advogado, seu conhecido, disse que poderia fazer o processo para que ela fosse habilitada entre os que reclamavam a herança. Ela foi atrás, conseguiu um pouco no bispado, outro pouco no cemitério, compor os fios e entregar toda a papelada para o advogado, que lhe tirou um bom dinheiro e nunca fez nada, pois o nome de minha mãe não aparece na lista dos habilitados. Ela manteve toda a sua vida essa papelada num cabide no guarda-roupa, mas há alguns anos, quando procurei, não achei mais. Não me animo a refazer o caminho e, portanto, a árvore genealógica ficou meio difusa. Nada adiantaria para este caso, mas gostaria de poder compor os galhos que deram origem a esse ser aqui presente. 
Minha bisavó era Correa. Entretanto, até o prefeito da cidade se dizia herdeiro e mais meio mundo. Nas terras, formaram-se cidades e vilas. Uma herança que se perdeu no tempo por uma birra e uma falta de previsão de como o mundo poderia mudar em cinquenta anos.
Minha mãe dizia que já ficava agradecida pela ilusão que ele havia lhe proporcionado. Eu não agradeço nada, pois não consigo perdoar a miséria em que minha bisavó e suas filhas viveram após ela ter ficado viúva aos trinta e dois anos. 
Não que eu consiga me imaginar nem por um momento como rica herdeira. Só não consigo entender é como numa família de gente que dá o coração, o sangue, a vida uns pelos outros, tenha existido alguém capaz de odiar assim, de uma forma sem perdão nem na morte.




De onde vem esta vontade de viajar? Do dna? Sim, deve ser daí, acrescida de um coquetel de imagens, de imaginação, de sons, de sonhos, de leituras. Minha mãe e minha avó não foram muito longe. Falta de condições financeiras e falta de internet. Mas não paravam. Minha avó empreendia a grande aventura de ir a Porto Alegre. Passava a mão em suas bolsas e se mandava na cansativa e longa peleia para visitar a irmã regularmente. A irmã já é outro capítulo e mais do que especial.
Minha mãe, sem condições de arcar com despesas de viagem, mascateava do Uruguai e Argentina para cobrir as despesas. Depois descobriu as excursões para o Paraguai, mais exatamente Foz do Iguaçu e Ciudad del Leste, quando podia somar contrabando e turismo. Eu a acompanhava na maior parte das viagens desde meus onze ou doze anos. Não havia fotos dessas viagens, mas aventuras, ah! se as havia.
Lembro difusamente do vazio imenso, da perspectiva de fim de mundo, quando era bem pequena e ela se ausentava. Chegava com roupas, sabonetes, perfumes e a casa se enchia de mulheres que compravam tudo por três a quatro vezes o preço pago na longínqua fronteira. Naquele tempo, tudo era longínquo.
Minha mãe ficava o tempo todo costurando para aquelas mesmas mulheres que compravam os sabonetes com formato e perfume de limão e os frascos de Madeira do Oriente. Juntava os trocados e embarcava no trem que ia para a fronteira Jaguarão-Rio Branco.
Em Jaguarão, se entra no Uruguai por uma ponte longa e bonita, onde funciona a aduana e os fiscais ficavam -nos áureos tempos do contrabando miúdo -a postos cuidando quem passava com qualquer volume suspeito. Ela confeccionou uma saia dupla, com bolsos que iam do cós à bainha e ali acomodava as roupas. Pregava as roupas na cintura com seguranças, daquelas que usavam nas fraldas de nenês antes das descartáveis. Numa dessas passagens pela aduana, o fiscal apontou para minha mãe e gritou: -"Senhora, componha-se"! No hotel, ela se deu conta de que uma das lingeries presas no cós tinha ficado fora do tal bolso e os tirantes pendiam abaixo de seus joelhos, denunciantes. O fiscal fora camarada, pois geralmente faziam a pessoa entrar e entregar tudo.
Rio Branco florescia naquela época graças a essas formigas carregadoras. Hoje tem lojas fechadas, a mesma rua de terra vermelha, as mesmas carroças mambembes que levam curiosos à Cochilha, outra vilinha com quase nada, a não ser uma padaria que faz uns biscoitos e bolachas diferentes dos nossos e algum comércio de queijo e doce de leite, os pontos fortes do país. O Uruguai sempre parece pobre. Mas ele se mantém com alguma espécie de magia, com uma serenidade e altivez impressionante e sua educação é de primeira.
Voltei muitas vezes a Rio Branco. Da última vez, havia dois ou três shoppings, abertos no tempo dos boatos de que seria zona livre. Perdeu. Ficou para o Chuí. Mas é um lugar bonito. Sua ponte lembra um pedaço de Europa. Ao por do sol, o rio reflete um céu vermelho ladeado pelos dois braços escuros das margens, onde luzinhas se acendem como numa árvore de Natal.