Meu pai era incrível. Criado no campo, em lugar ignorado, foi mal alfabetizado. Veio para a cidade não sei quando, mas desconfio que isso aconteceu depois dos quinze anos. Aprendeu marcenaria, dizia ele que no Senai. Tornou-se o melhor marceneiro de quem já tive notícias. Fazia móveis complicados por catálogo. Seus clientes constituíam a nata da alta sociedade local. O capricho, exatidão, paciência, tenacidade faziam com que aquela gente não o largasse. Nem mesmo quando fechou a oficina e resolveu ser feirante vendendo bolachas sofisticadas, das quais nos empanturrávamos após o almoço.
Como as pessoas continuavam a ir atrás dele para que lhes fizesse móveis, nossa sala passou de depósito de latas de bolacha a oficina de móveis. A dificuldade às vezes era para receber o pagamento. Entregava o móvel e a pessoa ia para a Europa e só se aborrecia com as dívidas que ficavam para trás, quando já estava de volta.
Ele aprendeu a tocar clarineta não sei quando nem onde. Todas as noites, sentava na beira da cama, prendia as partituras no suporte e ficava tocando.
Participava de uma banda e saía com sua clarineta também nos cordões de carnaval. Não sei que fim levou o instrumento, pois nos últimos anos não tocava mais.
Um dia, comprou uma moto. Desmanchou-a toda, botou as peças de molho no querosene e montou de novo. Minha mãe lhe fez uma jaqueta de couro. Lembro dele com uma faquinha desbastando as beiras para serem costuradas. Nos saíamos pelas estradas. Minha mãe na garupa e eu no tanque, sentindo o vento no rosto e o asfalto como uma linha escura à frente e as árvores correndo ligeiras para trás. Naquele tempo não havia fiscalização, proibição, postos rodoviários e quase nenhum trânsito. Eu podia saborear sem susto toda a liberdade. Acho que não há nada nos dias de hoje que possa substituir essa sensação maravilhosa.
Ele participava de corridas de moto. Levantamos cedo um dia e nos aboletamos num ônibus, eu e minha mãe, cheio de acompanhantes dos motociclistas. Minha mãe fez uma boa quantidade de balas de café e outras coisas-porque ela sempre carregava uma fartura de lanches nessas ocasiões.
Quando chegamos no local da corrida, meu pai chegou com uma mulher na garupa. Ela tinha o rosto todo lanhado. Ficamos sabendo que o marido se acidentara no caminho. Não sei o que aconteceu com o homem, mas lembro que na volta tive que dar o meu lugar para a mulher e sentar no colo de minha mãe.Daquele dia, fiquei com as imagens de um lugar poeirento que devia ser um hipódromo, homens de motocicleta com jaquetas de couro pretas, muita agitação, uma mulher de rosto redondo todo esfolado e sujo e um sabor gostoso de bala de café.
Das motos, meu pai passou para as caminhonetes. Comprava, ficavam paradas um tempão, ele desmanchava todo o motor, botava tudo no querosene, montava e a coisa andava.
Não contente em comprar velhas caminhonetes, ele resolveu fazer a carroceria inteira e comprar só motor e chassis. Nós apelidamos a primeira de cristaleira, porque era muito engraçada. Fechada, quadradinha, com vidros de correr nas janelas. Pintada de verde com vermelho é a lembrança mais ridícula da minha infância. Apesar de tudo, a coisa andava. Carregava as mercadorias para a feira e a família para a praia.