sexta-feira, 11 de novembro de 2016



É engraçado pensar que tio de minha bisavó (meu tio-tetravô? Isso existe?) era o homem mais rico deste estado. Aliás, era dono de metade deste estado e metade do Uruguai. Minha avó sempre falava  que a mãe dela contava sobre as tesouras de ouro da tia. Viviam na fazenda dele em Santa Isabel. Depois os irmãos brigaram não sei por quê. A briga deve ter sido feia, pois meu tetravô pegou a família e veio, com uma mão na frente outra atrás, para a cidade e nunca mais se falaram. 
Essa imensidão de terras e riquezas que esse antepassado possuía foram dadas de presente pelo imperador, não sei qual dos Pedros. Quando morreu, o bendito fez a primeira reforma agrária e a única que ocorreu neste país. Deixou tudo para os escravos. Nem uma tesoura de ouro para o irmão. 
O testamento continha a cláusula de que após cinquenta anos as terras seriam devolvidas pelos escravos e os herdeiros poderiam receber a herança. Minha avó disse que ela e a irmã passaram a infância indo ao foro com a mãe, tentando mudar o tal testamento. 
Passei minha infância e juventude escutando esse assunto em casa. Um dia, já casada e lecionando, meu marido chegou comentando que a frente do foro estava tomada por uma multidão, porque estava abrindo o testamento de um tal Faustino Correa. Levei um susto. Hein!! Mas este era o tio da minha bisavó! O que uma multidão tinha a ver com tal abertura? Não é que o homem que não teve filhos conseguiu se multiplicar em quase três mil herdeiros. Todo mundo se dizia seu descendente. 
Minha mãe ficou muito feliz. Um advogado, seu conhecido, disse que poderia fazer o processo para que ela fosse habilitada entre os que reclamavam a herança. Ela foi atrás, conseguiu um pouco no bispado, outro pouco no cemitério, compor os fios e entregar toda a papelada para o advogado, que lhe tirou um bom dinheiro e nunca fez nada, pois o nome de minha mãe não aparece na lista dos habilitados. Ela manteve toda a sua vida essa papelada num cabide no guarda-roupa, mas há alguns anos, quando procurei, não achei mais. Não me animo a refazer o caminho e, portanto, a árvore genealógica ficou meio difusa. Nada adiantaria para este caso, mas gostaria de poder compor os galhos que deram origem a esse ser aqui presente. 
Minha bisavó era Correa. Entretanto, até o prefeito da cidade se dizia herdeiro e mais meio mundo. Nas terras, formaram-se cidades e vilas. Uma herança que se perdeu no tempo por uma birra e uma falta de previsão de como o mundo poderia mudar em cinquenta anos.
Minha mãe dizia que já ficava agradecida pela ilusão que ele havia lhe proporcionado. Eu não agradeço nada, pois não consigo perdoar a miséria em que minha bisavó e suas filhas viveram após ela ter ficado viúva aos trinta e dois anos. 
Não que eu consiga me imaginar nem por um momento como rica herdeira. Só não consigo entender é como numa família de gente que dá o coração, o sangue, a vida uns pelos outros, tenha existido alguém capaz de odiar assim, de uma forma sem perdão nem na morte.

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