sexta-feira, 11 de novembro de 2016




De onde vem esta vontade de viajar? Do dna? Sim, deve ser daí, acrescida de um coquetel de imagens, de imaginação, de sons, de sonhos, de leituras. Minha mãe e minha avó não foram muito longe. Falta de condições financeiras e falta de internet. Mas não paravam. Minha avó empreendia a grande aventura de ir a Porto Alegre. Passava a mão em suas bolsas e se mandava na cansativa e longa peleia para visitar a irmã regularmente. A irmã já é outro capítulo e mais do que especial.
Minha mãe, sem condições de arcar com despesas de viagem, mascateava do Uruguai e Argentina para cobrir as despesas. Depois descobriu as excursões para o Paraguai, mais exatamente Foz do Iguaçu e Ciudad del Leste, quando podia somar contrabando e turismo. Eu a acompanhava na maior parte das viagens desde meus onze ou doze anos. Não havia fotos dessas viagens, mas aventuras, ah! se as havia.
Lembro difusamente do vazio imenso, da perspectiva de fim de mundo, quando era bem pequena e ela se ausentava. Chegava com roupas, sabonetes, perfumes e a casa se enchia de mulheres que compravam tudo por três a quatro vezes o preço pago na longínqua fronteira. Naquele tempo, tudo era longínquo.
Minha mãe ficava o tempo todo costurando para aquelas mesmas mulheres que compravam os sabonetes com formato e perfume de limão e os frascos de Madeira do Oriente. Juntava os trocados e embarcava no trem que ia para a fronteira Jaguarão-Rio Branco.
Em Jaguarão, se entra no Uruguai por uma ponte longa e bonita, onde funciona a aduana e os fiscais ficavam -nos áureos tempos do contrabando miúdo -a postos cuidando quem passava com qualquer volume suspeito. Ela confeccionou uma saia dupla, com bolsos que iam do cós à bainha e ali acomodava as roupas. Pregava as roupas na cintura com seguranças, daquelas que usavam nas fraldas de nenês antes das descartáveis. Numa dessas passagens pela aduana, o fiscal apontou para minha mãe e gritou: -"Senhora, componha-se"! No hotel, ela se deu conta de que uma das lingeries presas no cós tinha ficado fora do tal bolso e os tirantes pendiam abaixo de seus joelhos, denunciantes. O fiscal fora camarada, pois geralmente faziam a pessoa entrar e entregar tudo.
Rio Branco florescia naquela época graças a essas formigas carregadoras. Hoje tem lojas fechadas, a mesma rua de terra vermelha, as mesmas carroças mambembes que levam curiosos à Cochilha, outra vilinha com quase nada, a não ser uma padaria que faz uns biscoitos e bolachas diferentes dos nossos e algum comércio de queijo e doce de leite, os pontos fortes do país. O Uruguai sempre parece pobre. Mas ele se mantém com alguma espécie de magia, com uma serenidade e altivez impressionante e sua educação é de primeira.
Voltei muitas vezes a Rio Branco. Da última vez, havia dois ou três shoppings, abertos no tempo dos boatos de que seria zona livre. Perdeu. Ficou para o Chuí. Mas é um lugar bonito. Sua ponte lembra um pedaço de Europa. Ao por do sol, o rio reflete um céu vermelho ladeado pelos dois braços escuros das margens, onde luzinhas se acendem como numa árvore de Natal.

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